Ganhei esse livro como presente de aniversário em 2009. Sempre tive muita vontade de lê-lo, mas com tantos livros a comprar, tantas coisas novas para ler ele acabou ficando para uma “compra futura”. Alguns amigos meus sabiam dessa minha vontade de ler essa obra de Lawrence, então, na véspera de um aniversário meu, me perguntaram o que eu queria, eu sugeri o bendito livro e finalmente ganhei.
A questão basicamente não é essa, esse fato na verdade pouco ou nada tem a ver com o post a seguir, só quis exemplificar a minha curiosidade para com a obra, pois, claro, já tinha algum conhecimento do livro, já tinha ouvido falar de seu “tema principal” e de como tinha sido proibido quando fora lançado, e maior espanto tive quando descobri mais tarde que em uma de suas versões para o cinema, a de 1981, tinha a atriz Sylvia Kristel no papel de Constance Chatterley e pensei cá com meus botões: “Gente! A história deve ser pesada mesmo, pra colocarem Emmanuelle pra fazer o papel principal!”. E um ano depois, ao finalmente ler o livro, tive uma feliz surpresa. Nada, ou pelo menos cinqüenta por cento do que eu pensava da história, aconteceu. Não há nenhuma dona de casa ninfomaníaca que dorme com todos os homens que aparecem pela frente, do mais elevado aristocrata ao mais bruto e sem educação.
A história é muito mais do que isso. Claro que na década de 1920 falar de beijo na boca já era o suficiente para enfartar uma “moça de família”, falar então em penetração, ejaculação, orgasmo e usar termos como “gozar” e “cona”, nem pensar. Mas hoje, com a mentalidade do século XXI temos que ver além do que antes fora “escandaloso”,
Os temas vão saltando aos olhos durante toda a narrativa, o autor usa a temática principal como moldura para outros assuntos mais profundos, fala do ser humano em vários aspectos, físico, social, político e claro, sexual, mas não é um livro sobre sexo, um kama sutra do século XX. Longe disso, mas vamos com calma, de grão em grão a galinha enche o papo e é assim que as coisas são...
Bom... No início do livro somos introduzidos aos Reid, família de Constance, que posteriormente viria a ser Lady Chatterley, com essa introdução fica claro o estilo de vida da família, livre e cosmopolita. Ao casar-se com Clifford Chatterley, Constance não perde o ar cosmopolita e apenas após a volta do marido da guerra como cadeirante, a torna uma verdadeira dona de casa, que além do lar, tem o dever de cuidar de um marido "inválido".
O autor fala da primeira relação amorosa de Constance brevemente sem detalhes, apenas para exemplificar postura dela para com o sexo, que era a de uma concessão carnal pelo intelectual: “(...) os rapazes mostraram-se tão humildes, tão suplicantes... Por que não agir como rainhas e darem-se a eles generosamente?” p. 13 E até ser narrado, de fato descrito outro envolvimento carnal de Constance com outro homem lá se vão umas boas trinta páginas recheadas de crítica a aristocracia inglesa, aos homens que se julgavam tão donos da verdade que não notavam que a mulher sentada, calada, tricotando junto a eles de certa forma guiava o tom e a direção da conversa e em seu interior conhecia a todos apenas pelos seus discursos, conhecia suas almas, sem nenhum contato físico.
Lawrence, filho de mineiros, e criado numa cidade parecida com Tavershall, criou o ambiente certo pra falar das diferenças existentes entre os trabalhadores e seus senhores. A péssima condição de vida trazida, de acordo com ele e com razão, pela revolução industrial que agora era fato consumado, não era melhorada em nenhum aspecto apesar de a situação dos patrões sempre melhorar, já se falava em baixa remuneração e em greve, em homens que trabalhavam mais do que podiam e em máquinas que tomavam o lugar dos homens.
A própria Inglaterra já não era mais a mesma, a “antiga Inglaterra” havia sido esquecida para dar lugar a indústrias e moradias compactas para os trabalhadores que nada mais sabiam fazer além de produzir carvão e dinheiro para os mineradores. Para Lawrence, com a revolução Industrial, as pessoas deixaram de sentir para fazer dinheiro. As mulheres perderam o valor para os homens e homens para as mulheres, tudo isso com a ajuda do licor, cinema e jazz.
Com um discurso comunista em favor do trabalhador e nem tão a favor assim, dos donos das terras e das almas de seus homens, Lawrence vai aos poucos, discretamente, e não tão discretamente assim, tecendo seu ideal de vida para a Inglaterra, mesmo que seja através dos diálogos de seus personagens mostrando a disparidade social e seu genuíno medo do futuro. As ambições do homem se tornam cada vez mais inatingíveis e o culto a “deusa-cadela”, como Constance se refere ao dinheiro, se torna cada vez mais irrefreável ao ponto de a diferença de classes se tornar tão visível que chega a fazer parte de um diálogo entre Clifford e Constance:
“A questão não é mais ’Toma o que tens e dá-lo aos pobres’, e sim ‘Serve-te de tudo quanto possuis para animar a indústria e dar trabalho aos pobres’. Eis o único meio de alimentar tantas bocas e vestir tantos corpos.” p. 223.
A própria Lady Chatterley se sente desconfortável com seu título, por achar que ele talvez carregasse alguma responsabilidade que ela não carregava de coração, não gostava de ser reconhecida apenas como a Senhora de Wragby, pois ela era mais que isso. Era mulher e como mulher desejava uma vida menos sombria que a que a propriedade, a cidade e seu marido ofereciam. E num desses momentos de desespero e sufocamento de ideias que ela se refugia na floresta, local do selvagem, do natural, do puro e primário e lá encontra o guarda – caça (lá pela página 145) Oliver Mellors, um homem rude, solitário, mas que teve oportunidades no exército de subir na vida, mas optou por voltar às raízes e até a falar o dialeto de sua região, deixando de lado toda a “civilização” que havia sido construída ao longo do tempo em que servira na guerra.
Oliver é um homem tão preconceituoso e orgulhoso quanto Clifford. Renunciara a uma vida “melhor” não seguindo carreira no exercito por medo ou por não se achar igual aos outros, ele se sentia tão ou até mais importante que seu patrão o que fica ainda mais claro quando ele se torna amante de Constance, pois passa a “possuir” de maneira inteira, completa Lady Chatterley da forma que Clifford jamais poderia ou pudera.
A principio Constance se entrega a Mellors por pura conveniência e obediência, ela desejava ter um filho que e o marido não pode dar, ele, por sua vez, há muito não tinha uma mulher, pois assim desejava desde que se separara de sua esposa. No momento em que se encontram e o ato sexual se dá, Constance está completamente fragilizada e ele, que não queria mais nenhuma pessoa em sua vida, vê naquela mulher algo novo e puro, algo inocente e a toma para si. Na primeira e em muitas das relações seguintes entre ambos, o prazer só existe da parte dela e para ela estava certo, não via amor no sexo, para ela “(...) o movimento de vaivém daquelas coxas lhe parecia grotesco, como lhe pareceu risível o frenesi do pênis afobado ao chegar a sua pequena crise de ejaculação. O amor, então, aquilo? Aquele sobe-e-desce de nádegas? Aquele entra-e-sai do pobre pênis pequenino, insignificante, úmido? Amor, o divino amor!” p. 212.
Constance, além de ter tido experiências sexuais nada enriquecedoras, não se entregava de fato ao amante, achava que o ato de “se entregar” não apenas o corpo, mas a alma e o corpo como um conjunto, a tornaria uma escrava do homem: “A paixão não lhe era coisa nova – novidade era essa ávida adoração que Constance sempre temera, sabendo que seria o fim de sua força. E temia ainda. Temia que, adorando demais, se perdesse de si mesma, e se tornasse escrava.” p. 168.
Após o encontro com Mellors, se inicia então uma jornada de autoconhecimento e de conhecimento do outro, do que é o amor, e o que significa o sexo no relacionamento. Cansada de não poder se libertar de todos os seus conceitos e de todas as suas experiências, Constance, por fim, consegue se entregar ao amante por inteiro. Isso não se dá porque ela tem um orgasmo, por favor! Isso ela já havia descoberto “há tempos”, como diz minha avó. É algo muito mais intenso e verdadeiro, além das sensações: “E em seu peito o terror esvaiu-se. A paz voltou ao corpo dela, já liberto de resistências, num dar-se inteiro, num deixar-se flutuar.” p. 214.
Por isso que eu digo, existe uma visão muito inferior desse livro por aí. Ele deve ser mais divulgado, pelo que ele realmente aborda e não por cenas que servem apenas como ilustração do mundo sensorial e íntimo de cada ser humano. Como qualquer um: Constance, Mellors e até o próprio Clifford, tinham suas dúvidas e medos. Lady Chatterley e o guarda – caças descobriram como lidar com seus medos e como lidar consigo mesmo, ultrapassando as barreiras do desconhecido, do esquecido, da sociedade e do preconceito: do mundo exterior e do interior.
‘O Jardim do Silêncio’ – Moska http://www.youtube.com/watch?v=en17ruRRPOA
E como trilha sonora para esse livro eu sugiro a música 'O jardim do silêncio' de Moska. A letra fala de uma mulher ‘que escreve um poema no banco de trás’ de um carro, só observando e chegando à conclusão de que ‘tudo se compõe e se decompõe’ assim como Constance se comportava durante as intermináveis reuniões com os amigos do marido, observando e tirando suas conclusões. Essa canção também me faz lembrar um dos movimentos da Vanguarda Europeia, o Futurismo. Criado por Filippo Tommaso Marinetti no início do século XX. Apreciava a velocidade, automóveis, eletricidade, tudo que representasse a ‘evolução’, mas não tinha muito apreço pela figura feminina, como na canção, colocada no banco de trás, mas observando tudo. Talvez não tenha sido a intenção do compositor buscar essa ‘essência Futurista’, mas ao meu ver caiu bem e me serviu em muitas aulas de Literatura que dei utilizando ela para aproximar dos alunos o conteúdo, fez bem esse papel...


